Saudades é o nome da cidade. Aquarela é o nome da creche que foi testemunha ocular da maldade humana. Três pequenas vidas ceifadas. Três sementes ainda em desenvolvimento. Uma cor monocromática pintou a manhã daquele fatídico dia. Estamos tão acostumados com a morte que nem paramos para pensar no tamanho da frieza e da crueldade de um ser (não) humano. A escola parecia gritar, parecia reagir, parecia lutar contra a malevolência de um indivíduo numa atitude cadavérica. A rubra cor ganhou destaque. Nem mesmo as lágrimas conseguiram ofuscar o vermelho daquele dia. Não teve uma pintura numa folha qualquer. O sol foi desenhado pela cor do sangue. Se tivesse a possibilidade de fazer um castelo, talvez o perigo fosse menor. Não deu tempo nem de passar o lápis em torno da mão para se fazer uma luva. Os pingos daquele dia não eram de chuvas, mas sim de sangue e lágrimas.
Um pinguinho de tinta não caiu num pedacinho azul do papel. As gaivotas que ali voavam vieram em formas angelicais. Vieram num barco a vela branco ao lado de um lindo avião rosa e grená para levar os mais novos passageiros que iriam para o céu. As professoras eram quem os pilotava. No caminho, pintaram numa folha qualquer um navio de partida sem saber que estavam partindo desta vida. Estavam ao lado dos bons amigos tentando, também, fazer com um simples compasso o mundo que não conheceram. Não tiveram tempo de ver o futuro e nem deu tempo para ver se ele é uma astronave. A vida, infelizmente, convidou-os a chorar. Nessa estrada, coube a eles o que veio de forma cruel. O fim foi poder ficar mais perto do céu. A aquarela, literalmente, foi descolorida, é monocromática.
O cenário não era uma maravilha e muito menos um episódio relicário. O artista foi um assassino cruel e não tinha nada de genial. O país chora em rubras lágrimas. Nem verdes matas, nem cachoeiras e cascatas. O lindo céu azul de anil foi tapado pelas nuvens escuras. O Brasil foi emoldurado de sangue. Monocromático. Na cidade de Saudades, a saudade ecoa e chora. A creche Aquarela perdeu o colorido. Nem mesmo o branco da paz apagará a tristeza que ficará enraizada nas paredes. O grito e choro ainda devem ecoar por muito tempo. Funestamente.
