Ela tinha um poder artístico incomparável com as mãos. Magia. Mãos de fada. Quantas mulheres saíram com um sorriso no rosto daquele salão! Quantas passaram por ali para depois serem fidedignas aos olhos do criador ao fazer as juras de amor! Quantas! Ao mesmo tempo, foi mãe e pai. Criou três filhos sozinha. Sem contar a ajuda incomparável para criar os filhos dos outros. Desde cedo, colocava-nos para limpar a casa. Dividia as tarefas. Se quiséssemos roupa passada, fazia-nos passar. Nossos uniformes da escola eram lavados todo dia na hora do banho para serem secos atrás da geladeira. Quando brigávamos, a Espada-de-são-jorge nos separava. E foi assim tecendo os filhos. Proporcionou passeios que fugiam do seu orçamento. Aproveitamos muito o tempo em que morávamos nas diversas casas alugadas que passávamos. Quando o aluguel apertava, fazíamos as malas para procurar uma moradia mais em conta. Parecíamos ciganos ( assim ela falava). Nossa mãe nos apresentou a luta que é a vida muito cedo.
Começamos a trabalhar precocemente. Sabíamos que ela não teria condições de arcar com os custos de uma faculdade. Trabalhamos para nos formar. Cá estamos. Filhos e pais. Homens dignos que sabem o quanto que essa vida sabe bater, sabe tirar, mas também sabe proporcionar momentos de alegria quando os caminhos são traçados com humildade e simplicidade. Ela, a nossa mãe, tinha a força de um leão. Mesmo com tantas dores nas pernas, com as feridas e com as insuportáveis dores nas costas, levanta cedo e ia à luta. Incansável. Cada dia que findava ela dialogava com Deus “Obrigado meu Deus por mais um dia”. Não sei se esse obrigado era para agradecer o trabalho ou para agradecer por estar de pé mais um dia. Era uma fortaleza. Impenetrável.
Infelizmente, ela se foi. Foi-se como um pássaro. Fechou os olhos. Não mais os abriu. Alçou o seu voo para a luz. Para o túnel. As dores não conseguiram derrubá-la. As contas não abalaram sua estrutura. Foi necessário o poder divino. Lá em cima estão precisando de mães e cabeleireiras que tenham a garra que nossa mãe teve. Deus, eu permiti que a levasse. Mas por favor, não nos leve as doces lembranças que temos na nossa rainha. A dor da saudade passa; as boas lembranças se cravam no peito. Que assim seja!
