Uma série de streaming, chamada Adolescência, tem batido recordes de público e gerado muitos comentários e também controvérsias sobre o assunto.
Para quem não assistiu, este texto pode conter spoilers. Mas, assista. Vale a pena.
Já é de nosso conhecimento que a adolescência é uma fase bastante desafiadora para os pais e não menos difícil para os próprios adolescentes. São tantas mudanças acontecendo – a nível cerebral, inclusive – e tantos conflitos enfrentados que é impossível os pais e filhos não se sentirem desafiados nesta etapa.
A minissérie da qual falamos tem estimulado inúmeros comentários e opiniões em redes sociais sobre o significado da história e seu impacto sobre quem a assiste.
Alguns tentam encontrar o culpado pelo adolescente ter cometido o crime, outros não entenderam o final. E ainda há vários profissionais da área questionando a postura e conduta da psicóloga que avalia o adolescente.
E nós não iremos falar sobre nada disto aqui porque, com certeza, o objetivo desta minissérie não é apontar culpados e nem criar uma história de suspense ou investigação com um final surpreendente.
O objetivo da história, segundo o próprio autor e também ator da série, é justamente levar a reflexão de como todos nós- pais, escola e sociedade – estamos ajudando, ou atrapalhando, o desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes.
Na história Jamie, de apenas 13 anos, aparentemente parte de uma família comum, comete um grave crime contra uma colega de sala e a partir disto os episódios se desenvolvem e se concentram na sessão dele com a profissional que o avalia e na dinâmica da família, com cenas do cotidiano, reflexões e questionamentos do próprio papel dos pais.
O que tem feito as pessoas se sentirem tão mobilizadas é justamente o fato de que de tão comum, o que é narrado ali poderia ter acontecido dentro de nossas casas ou com alguém conhecido. É um relato direto e real de situações do cotidiano e de questões graves que permeiam nossa sociedade atual, como a misoginia, o bullyng, o uso excessivo e sem mediação da internet e redes sociais.
A série acerta o alvo: ela fala diretamente com a nossa dor. A dor dos pais, que sentem culpa e se questionam se realmente fazem ou fizeram o suficiente pelos filhos, a correria insana da vida moderna, que nos coloca cada vez mais longe da presença e acompanhamento deles, a dor da rejeição, de não ser aceito, de ser diferente e a dor de constatar que, sim, nós e nossos filhos podemos chegar e ultrapassar nossos limites provocando uma dor indescritível no outro, também.
Muitos me perguntaram: mas os pais são culpados? Não diria culpados, mas, responsáveis por parte da situação que levou o adolescente ao ato em si. Mas o filme não tem final? Tem, o final é claro desde o começo porque nunca houve outra possibilidade – o adolescente comete um crime grave e pronto. Não tem volta. Não tem conserto. A realidade é o que é. E isto assusta.
E a escola? E as redes sociais? Justamente por todos estes fatos expostos é que a questão é conjunta. Todos nós somos responsáveis, todos nós precisamos olhar para isto e agir – pais, educadores, profissionais, sociedade.
“Ah, mas isto nunca aconteceria com o meu filho/a” – tem certeza? Melhor do que ignorar o assunto é assumir o fato de que nossa realidade é esta e os desafios estão ai para serem compreendidos e enfrentados.
Nunca se esqueça: em caso de dúvidas ou mesmo na presença de comportamentos que podem não ser normais ou saudáveis, procure ajuda profissional.